Pedro Juan Caballero - 4 de agosto de 2026
el mundo

A caçada ao doleiro Dario Messer

Publicado el 11/05/2018

Na lista dos mais procurados da Interpol, Dario Messer é acusado de usar mais de 3 mil empresas de fachada em 52 países para lavar dinheiro de atividades ilegais


Dario Messer gosta de viajar e coleciona amizades com poderosos e famosos em festas grandiloquentes

At um ms atrs, Dario Messer era visto com frequncia circulando no Leblon, bairro da Zona Sul carioca, a bordo de uma scooter sem placa (A amigos ele no se enrubescia ao dizer que era para evitar multas, j que estacionava com frequncia em locais proibidos). Era fcil reconhec-lo. Messer nunca usava capacete. Quem o viu, geralmente vestido de bermuda, camisa surrada e chinelos, custaria a acreditar que o mesmo homem que amealhou, em sete anos, uma fortuna de US$ 24 milhes (R$ 81,3 milhes, pela cotao do ltimo dia 7) com a lavagem de dinheiro suspeito. Desde a semana passada, quando a Operao Cmbio, Desligo o apontou como o doleiro dos doleiros, Messer desaparaceu das ruas do Leblon e do mundo. Para ca-lo, o Ministrio Pblico Federal (MPF) est montando, com a ajuda de acordos de cooperao, uma fora-tarefa internacional que tambm seja capaz de desmontar uma lavanderia que operou em 52 pases, com cerca de 3 mil offshores, empresas montadas no exterior, no caso como fachada para negcios ilcitos.

A despojada rotina do doleiro chegou ao fim depois das colaboraes premiadas de Cludio Barbosa, o Tony, e Vincius Claret, o Juca Bala, ex-scios de Messer, que atriburam ao piloto de scooter o controle de uma gigantesca rede de lavagem de dinheiro, essencial para a prtica de crimes como corrupo, sonegao tributria e evaso de divisas, como sustentou o pedido de priso do MPF. O banco paralelo do doleiro, por onde teria passado US$ 1,6 bilho, era sediado no Uruguai e operado doPanam Country Club, condomnio de luxo em Hernandarias, distrito paraguaio na fronteira com Foz do Iguau, residncia oficial de Messer.

Messer acreditava estar blindado nos vizinhos do Mercosul. Em 2003, transferiu as operaes de lavagem para o Uruguai. Dez anos depois, quando era alvo de um inqurito iniciado pela Operao Sexta-feira 13, desencadeada pela Polcia Federal, com foco em crimes contra o sistema financeiro no Rio de Janeiro e em So Paulo, obteve cidadania paraguaia. Oficialmente, morava em Hernanderias, mas atravessava a Ponte da Amizade com frequncia, embarcando na ponte area de Foz para o Rio. Sua cobertura na Avenida Delfim Moreira, no Leblon, era palco de rega-bofes reunindo jogadores de futebol, dirigentes de escolas de samba e algumas das beldades que brilham nos desfiles da Marqus de Sapuca.

Essa blindagem, contudo, comeou a apresentar trincas. Em maro do ano passado, as autoridades uruguaias, tradicionalmente avessas cooperao internacional, surpreenderam ao acolher a ordem de priso contra Barbosa e Claret, scios de Messer que geriam as operaes naquele pas. Depois de passar uma temporada atrs das grades, a dupla desistiu de lutar contra a extradio e voltou aoBrasilpara denunciar o esquema do doleiro dos doleiros. Na semana passada, o Uruguai voltou a demonstrar boa vontade ao prender quatro compatriotas envolvidos com Messer (Francisco Muoz Melgar, Ral Zboli e os irmos Jorge e Ral Fernando Davies Cellini).

O obsquio uruguaio no ocorre por acaso. As prises foram autorizadas no momento em que o pas vizinho providencia mudanas na legislao para se livrar da pecha de paraso fiscal. O governo precisa provar ao Grupo de Ao Financeiras Contra a Lavagem de Dinheiro (Gafi), espcie de xerife do mercado financeiro internacional, que est abandonando a cultura do segredo que acobertava gente como Messer. Caso contrrio, corre o risco de voltar lista dos pases lavadores, de onde foi retirado em 2016 sob a condio de mudar.

Como foragido, Messer foi includo na difuso vermelha da Interpol espcie de ndex dos mais procurados do planeta. Ele no foi achado na manso paraguaia ou na cobertura do Leblon, onde a Polcia Federal recolheu quilos de papel triturado. Como nem a mulher do doleiro, Rosane, estava em casa, as autoridades acreditam que a Operao Cmbio, Desligo vazou. Uma das suspeitas de rota de fuga seria o Paraguai. A outra seria Israel, terra de origem da famlia Messer.

O doleiro visto no Paraguai como amigo pessoal do presidente Horcio Cartes. Em 2013, Messer integrou uma comitiva oficial de Cartes em visita a Israel. Documentos obtidos pelo O Globo mostram que ele era scio no Paraguai, na Matrix Plus, de um primo de Cartes, Juan Pablo Jimenez Viveros. De acordo com a investigao noBrasil, Messer teria obtido a cidadania paraguaia por meio de despacho do ministro da Suprema Corte do pas, Miguel Oscar Bajac. Para isso, teria apresentado um nada-constabrasileiro quando j era alvo de inqurito aberto a partir da Operao Sexta-feira 13.

As autoridades paraguaias, no entanto, afirmam querer colaborar com asbrasileiras no caso Messer. Os procuradores da Repblica do pas vizinho chegaram a criar um grupo de WhatsApp com os colegas doBrasilpara a troca de informaes. As relaes bilaterais, no mbito penal, tm crescido. Recentemente, os ministrios pblicos federais dos dois pases se uniram para investigar os supostos crimes praticados pela Operao Condor, aliana poltico-militar formada por ditaduras da Amrica do Sul nos anos 1970.

Messer tambm no dever encontrar facilidades em Israel. Um recente acordo de cooperao com oBrasilpermitiu s autoridades israelenses desbaratarem uma quadrilha internacional que atuava naquele pas. Para isso, oBrasilautorizou a transferncia, em duas ocasies, do preso Yoran El Al. Ele havia sido preso em 2011, por crimes relacionados a drogas, crime organizado e lavagem de dinheiro. Sua delao, que valeu aoBrasilum elogio do Ministrio da Justia israelense, permitiu uma ampla operao policial contra a famlia Abergil, comandada pelo mafioso Itzak Abergil.

Messer no desapareceu sozinho. Dos 46 alvos da Operao Cmbio, Desligo, etapa mais recente da Operao Calicute (verso da Lava Jato no Rio), 11 continuavam foragidos at a concluso desta edio. As fugas de Rene Loeb, Alberto Lisnovetzky, Carlos Alberto Braga de Castro, Wander Bergmann, Patricia Matalon, Bella Kayreh, Chaaya Moghrabi, Ernesto Matalon, Claudine Spiero, Richard Andrew e Augusto Rangel reforam as suspeitas de vazamento.

De acordo com Barbosa e Claret, Messer era o cabea do negcio e ficava com 60% dos lucros obtidos nas operaes de lavagem. Eles contaram que, at meados de 2013, o doleiro chegou a ter um banco em Antgua e Barbuda, denominado EVG, para atender a clientela. De 2011 at 2016, segundo eles, Messer teria lucrado US$ 15 milhes. Em 2009, ano em que ele bombou, como sustentam os delatores, embolsou de uma s vez US$ 9 milhes. No h registro dos ganhos em outros anos.

Ao contrrio do que se imaginava, o sistema de lavagem internacional, envolvendo pelo menos 52 pases, no funcionava apenas com acordos verbais entre os doleiros. Barbosa e Claret entregaram s autoridades documentos que comprovam a existncia de um sistema paralelo denominado Bank Drop, no qual doleiros escrituravam os recursos remetidos ao exterior, por intermdio de um modelo conhecido como dlar-cabo, no rastrevel pelo Banco Central: os doleiros recebiam noBrasile compensavam em contas no exterior, sem fazer uma remessa oficial.

Como as investigaes noBrasiltambm encontraram contas antigas de Messer na Sua, os procuradores da Repblica vo tentar um acordo de operao com os suos. Sendo assim, possvel que a caada a Messer envolva, alm doBrasil, uruguaios, paraguaios, israelenses e suos. Pela acolhida encontrada at aqui, os investigadoresbrasileiros esto otimistas sobre as chances de pr as mos no doleiro dos doleiros.

Messer (de chapu) em festa com amigos (Foto: Arquivo pessoal)
Cdula de identidade paraguaia do megadoleiro (Foto: Arquivo pessoal)
Fonte:epoca.globo.com
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