A cabeça de Bolsonaro
Os atos e as falas do presidente podem ser sinais de transtorno narcísico e lógica delirante. Mais grave, segundo a literatura médica, é a possível falta de empatia. Mas isso núo o exime de responsabilidade. Ele sabe o que faz
CRISE APS CRISE Bolsonaro em seu estado normal: irresponsabilidade consigo e com as outras pessoas (Crdito: Uesley Marcelino)
Psicologia
A quase exonerao do ministro da Sade, Luiz Henrique Mandetta, na semana passada, por Jair Bolsonaro, mostra que o presidente possui traos que podem apontar para um transtorno de personalidade narcsica, caracterstica psiquitrica que se manifesta pelo egocentrismo, cime e inveja. Como pode Mandetta ter ndice de popularidade maior que o dele? Como pode Mandetta ser mais querido pela populao? Bolsonaro j externou idntico comportamento, em instantes polticos diversos, direcionado ao ministro da Justia, Sergio Moro, e ao ministro da Economia, Paulo Guedes. Ocorre, no entanto, que a realidade da pandemia nem poltica, d-se ela no estrito campo da medicina e da cincia como toda peste, surge do impondervel. Mesmo assim, Bolsonaro tem cime e inveja, a sua cristaleira narcsica se espatifa em mil cacos pelo cho quando no consegue controlar o destino. Trata-se, talvez, de uma mente narcisicamente infantilizada. Sentir inveja de Mandetta similar situao do amante que tem cime e compete emocionalmente, por exemplo, com os filhos crianas da mulher casada com a qual ele se relaciona. Mandetta o ministro da rea em questo, ele quem tem de comandar tudo, e ponto final. O saudvel torcer pelo seu sucesso e no invej-lo. No cabe ciumeira, ou seja: as atitudes do presidente esto fora do lugar, numa lgica que psicanalistas classificam como eventual lgica delirante.
Bolsonaro, devido sua arrogncia decorrente desse possvel narcisismo, precisa criar inimigos, mas a surgiu nele uma perplexidade: o vrus no foi criado por ningum, nem por ele, o Messias! A vem, como explica o psicanalista Christian Dunker (fazendo a ressalva de que a sua observao no um diagnstico), a negao da gravidade da pandemia: a negao a mais simples atitude psquica diante do desconhecido. No liquidificador psquico que o mundo emocional de Bolsonaro, liquidificador ligado em alta rotao mas vazio, est o contato de si prprio com a sua fraqueza. Ele parte ento para o ataque como forma de fugir desse confronto interior. Nasce, assim, a nuvem paranoica. Bolsonaro ataca o adversrio porque consciente de sua fragilidade emocional, diz o psicanalista Mrio Corso (estabelecendo a mesma ressalva de seu colega). desse sentimento que decorre a necessidade de ficar insistindo em falar que quem manda sou eu, o dono da caneta sou eu. Ou, como o fez na tera-feira 31, em relao a Mandetta: no se esquea que eu sou o presidente.
Ao sabor do vento
Aos eventuais narcisismo, paranoia e lgica delirante se juntam possivelmente outros componentes do temperamento (poro endgena da personalidade), e no menos significativos. Um deles o messianismo, o outro a recorrente falta de empatia. A insistncia em falar da hidroxicloroquina, como se ele fosse um mdico, indica o lado messinico: a cura tem de vir dele, Bolsonaro, o Arnold Schwarzenegger do coronavrus. O quanto isso irresponsvel, no importa. Quanto falta de empatia, que tambm implica ausncia de responsabilidade consigo e com os outros, pode ser ela indicadora de transtornos de personalidade, segundo a Classificao Internacional de Doenas e o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Desorders (elaborado pela American Psychiatric Association). Bolsonaro no apresentou condolencncias aos familiares de mortos pelo vrus. Igual ausncia de empatia exibiu quando, sem ter ainda em mos a contraprova de seu teste, engrossou em Braslia manifestao a seu favor, expondo no apenas a si mas tambm outras pessoas ao risco de contrarem a doena. Repetiu igual comportamento em nova ocasio, cumprimentando com apertos de mos aqueles que encontrava.
Ainda no contorno dessa provvel falta de empatia localiza-se uma de suas falas, tambm recorrente. No combate violncia no Rio de Janeiro e na liberao da quarentena, ele v a morte sem sentimento. Afirma: vai morrer gente? Vai morrer gente! Mas todos ns vamos morrer um dia!. Que medo! Bolsonaro no enxerga o outro, caindo no ridculo de dizer que o vrus, se o acometesse, seria uma gripezinha, dado o seu histrico de atleta. A foto, da qual se orgulha, mostra-o vencendo uma prova de atletismo nos tempos de Exrcito: ele cruza a linha de chegada parecendo mais um desses bonecos inflavis que ficam se mexendo ao sabor do vento em postos de gasolina do que um corredor de verdade. Para Bolsonaro, tudo em Bolsonaro perfeito. doena? Claro que sim! Mas isso no o exime de responder pelos seus atos. No h dficit cognitivo. Ele sabe o que faz.
Em seu delrio messinico, o presidente Jair Bolsonaro imagina-se o Arnold Schwarzenegger do novo coronavrus e o deus capaz de derrotar do dia para a noite a pandemia
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