Pedro Juan Caballero - 1 de agosto de 2026
el mundo

Carta ao Leitor: Olhar estrangeiro

Publicado el 28/05/2020

Bolsonaro tem sido o maior inimigo da estabilidade de que precisamos para recuperar nossa imagem internacional e os investimentos que tanto nos fazem falta


SUCESSO DE MICOS -A reunio ministerial e o desmatamento na Amaznia: falta de postura e polticas equivocadas trazem prejuzos imagem e s finanas do pasMarcos Corra/PR/Jonne Roriz/.

Na poltica internacional, credibilidade e previsibilidade so dois fatores essenciais para o sucesso. Eles servem para estimular a cooperao entre naes, proporcionar acesso a decises de grande impacto na diplomacia e principalmente atrair capital estrangeiro.

Quanto maior a estabilidade, obviamente, mais segurana um pas transmite aos seus parceiros. Nas ltimas dcadas, o Brasil obteve algumas importantes vitrias nesse caminho. Conseguiu estabilizar sua moeda, comprovou seguidamente a solidez de suas instituies e desenvolveu polticas respeitadas e aplaudidas no exterior, com destaque para os temas ligados desigualdade social e ao meio ambiente. Com a eleio de um governo liberal em 2018, defensor de uma filosofia mais receptiva ao capital, parecia que o pas finalmente deslancharia rumo ao den, depois de alguns anos de forte recesso econmica. Parecia.

Do ano passado para c, infelizmente, a imagem do Brasil no exterior vem sofrendo uma srie de arranhes todos por uma postura belicosa ou equivocada do governo Bolsonaro. A primeira grande trombada internacional deu-se em relao poltica ambiental, com o aumento das queimadas e o desmatamento na Amaznia. O descaso brasileiro levantou protestos em todas as partes do mundo, especialmente na Europa, o que provocou o cancelamento de fundos internacionais para o desenvolvimento da sustentabilidade na regio e prejuzos ao agronegcio (que s no foram piores graas ao esforo da ministra da Agricultura, Tereza Cristina). Mais recentemente, e de forma absolutamente inexplicvel, tivemos muitas rusgas com o governo chins em razo das declaraes de um dos filhos do presidente, Eduardo Bolsonaro, e de ministros da ala ideolgica deste governo, todos esquecidos de que a China hoje nosso maior parceiro comercial. H poucos dias, mais um revs: em decorrncia do descontrole no combate pandemia, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, supostamente um grande aliado de Bolsonaro, fechou as fronteiras com o Brasil, proibindo as viagens de cidados no americanos quele pas.

Estamos com os olhos do mundo voltados para c e a viso no boa. Neste momento, o Brasil o pas com o maior nmero de mortes dirias causadas pelo novo coronavrus. O combate Covid-19, alis, um dos aspectos que reforam a percepo de incompetncia, de instabilidade e de desorganizao, com o presidente num caminho negacionista e irresponsvel, enquanto o pas ruma firme para a casa dos 30000 mortos. Como se o desafio humanitrio e sanitrio j no fosse gigantesco, vivemos uma balbrdia poltica, com as entranhas do governo expostas por um vdeo de uma reunio ministerial. Nos trechos que vieram a pblico, ficam patentes o desrespeito que alguns integrantes desta administrao nutrem pelas instituies, a total ausncia de compostura com que se sentam mesa para (supostamente) debater os destinos do pas e os instintos mais primitivos do presidente, que enxerga um eterno ns contra eles e defende o armamento da populao que o apoia. Bolsonaro, por sinal, tem sido o maior inimigo da estabilidade de que precisamos para recuperar nossa imagem internacional e os investimentos que tanto nos fazem falta. Embora exista liquidez financeira no mundo, e oportunidades claras de bons negcios por aqui, o capital tem medo de lugares que no inspiram confiana, cujos cenrios podem se alterar da noite para o dia, com os poderes se estranhando. Atualmente, como mostra a reportagem que comea na pgina 28, o Brasil visto exatamente desta forma: um pas instvel e imprevisvel.

Publicado em VEJA de 3 de junho de 2020,edio n 2689

Buscador
Lo Ultimo