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Interamericanas

Delfim Netto, de czar a Rasputin: 50 anos de influência na economia brasileira

Publicado el 08/03/2018

Ministro por mais de 13 anos durante a ditadura, desde a redemocratização ele vem atuando como conselheiro de governantes, como Lula, Dilma e Temer


Czar.Delfim Netto: aos 38 anos, o titular da Fazenda era o mais jovem ministro do general-presidente Castelo Branco

Com a quase certa vitria do candidato Presidncia da Repblica pela Aliana Democrtica, Tancredo Neves, chega ao fim um perodo da vida econmica do pas marcado pela presena de um homem que foi, sem dvida, czar da economia. Quando a frase foi publicada no GLOBO, em 30 de dezembro de 1984, esses dois fatos pareciam certos: que Tancredo assumiria a Presidncia e que AntonioDelfim Nettose afastaria do comando da economia brasileira. Mas a Histria mostrou dois desfechos surpreendentes. A trgica morte de Tancredo foi acompanhada pelo pas inteiro, mas no to conhecida a histria do homem que comandou a economia durante a ditadura como um czar e, depois, continuou no poder - no mais como czar, mas como Rasputin: um homem que, mesmo sem ocupar cargos no Executivo, aconselhou governantes, influenciou poderosos, como o conselheiro dos Romanov, a famlia imperial russa. E que no sai de cena. No toa que, mais de 30 anos depois de deixar o seu ltimo ministrio, Delfim continua relevante, dando pitacos, e sendo ouvido e lido por cidados comuns e governantes.

Nada mais adequado para algum como ele do que ter nascido no Dia do Trabalho, em 1 de maio de 1928, j que Delfim conhecido por ser um workaholic. Reportagem publicada no GLOBO, em 28 de maio de 1973, conta que ele dorme normalmente 4 a 5 horas por dia, acorda s 6 horas e frequentemente pode ser encontrado no Gabinete a partir das 7 at as 22 horas. Ele dedicado desde menino: comeou a trabalhar aos 15 anos como contnuo de uma empresa de sabonetes, enquanto, noite, estudava no equivalente ao ensino fundamental. Iniciou o curso de Economia da Universidade de So Paulo (USP) em 1949, e, enquanto estudante, trabalhou no Departamento de Estradas de Rodagem de So Paulo e na Bolsa de Mercadorias de So Paulo. Alm disso, foi eleito presidente do Centro Acadmico Visconde de Cairu, que representa os alunos de Economia, Administrao e Contabilidade da USP.

Em 1965, entrou para o Conselho Consultivo de Planejamento (Consplan), chefiado por Roberto Campos, para assessorar o primeiro governo da ditadura militar (1964-1985), comandado pelo marechal Humberto de Alencar Castelo Branco. Durante a presidncia de Castelo Branco, ele tambm foi assessor do ministro da Fazenda, Octvio Gouva de Bulhes. Delfim foi ainda um dos criadores do modelo matemtico do Plano Decenal e colaborou no projeto que criou o FGTS. Durante essa poca, tambm fazia trabalhos acadmicos na ctedra de Economia Brasileira da Faculdade de Economia de So Paulo e colaborava com rgos privados e pblicos. Entre 1966 e 1967, por poucos meses, foi secretrio da Fazenda do Estado de So Paulo na gesto de Lauro Natel.

No comeo de 1967, ele foi surpreendido ao receber o convite para o Ministrio da Fazenda do marechal Arthur da Costa e Silva. Delfim, aos 38 anos, era o mais jovem do Ministrio e o nico solteiro. Ficou no cargo at 1974, sendo ento o nico a participar de trs governos (Costa e Silva, Junta Militar e o do general Emlio Garrastazu Mdici) desde o incio da Repblica. Durante a passagem pelo ministrio, ele foi to lembrado por sua poltica econmica quanto por suas atitudes nos bastidores do governo. Ele foi personagem importante na criao do Ato Insitucional n 5 (AI-5) smbolo dos anos de chumbo no Brasil, decretado em dezembro de 1968 , que, entre outras medidas, aumentava os poderes do presidente e retirava o direito de habeas corpus para vrios crimes. Em depoimento Comisso da Verdade da Cmara Municipal de So Paulo, em 25 de junho de 2013, ele afirmou que no se arrependia de ter sido um dos elaboradores do AI-5.

Se as condies fossem as mesmas e o futuro no fosse opaco, eu repetiria. Eu no s assinei o AI-5 como assinei a Constituio de 1988 disse, referindo-se sua eleio como deputado constituinte.

Quanto a uma suposta participao para arrecadar, junto a empresrios paulistas, fundos destinados Operao Bandeirante (Oban), um centro de informaes montado pelo Exrcito em 1969 para combater as organizaes armadas de esquerda, ele nega. No depoimento Comisso da Verdade, Delfim afirmou:

Duvido que tenha existido esse processo de arrecadao com o empresariado.

O economista garante que no sabia sequer da existncia de torturas durante o regime militar. Em entrevista ao GLOBO, publicada em 23 de maro de 2014, declarou:

Uma vez perguntei ao presidente Mdici se havia tortura. Ele me disse que no. Ns ouvimos, como todos, coisas aqui e ali. Acreditei nele.

Durante o perodo em queDelfim Nettoficou frente da Fazenda o pas mergulhava no perodo mais obscuro da ditadura militar, devido forte represso poltica, mas foi tambm nessa poca que ocorreu o milagre econmico. O Brasil vivia um momento de forte crescimento com taxas de dois dgitos: entre 1967 e 1973, o aumento mdio do PIB, segundo o IBGE, foi de 10,16%. Tambm no perodo, cresceram a inflao (mdia de 19,97% no perodo, segundo o IBGE) e a desigualdade de renda - ou, como descreveu o prprio Delfim no GLOBO, em 19 de maro de 1978:

Umas classes melhoraram mais do que as outras.

A poltica econmica do ministro era descrita por seus crticos como fazer o bolo crescer, para depois dividi-lo, embora em entrevista ao GLOBO, em 23 de maro de 2014, ele afirme:

Esta frase nunca passou pela minha boca. Disse que no se pode distribuir o que voc ainda no produziu, a no ser que voc tome emprestado.

A poca do milagre tambm foi marcada por um forte ufanismo, devido melhora na economia, alta nas bolsas de valores do pas e conquista da Copa do Mundo de 1970. Nessa poca, foi criado o lema: Brasil, ame-o ou deixe-o. Tudo isso chegaria ao fim, comeando com a queda da bolsa, em 1971, e sofrendo seu ataque final com o primeiro choque do petrleo, em 1973, que causou forte inflao, desequilibrou a balana comercial do pas e diminuiu o crescimento do PIB.

Mario Henrique Simonsen, o ministro da Fazenda seguinte, j sob o governo do general Ernesto Geisel, declarou que a inflao divulgada na era Delfim era falsa, j que simplesmente mostrava os ndices de um congelamento imposto pelo prprio ministro, que no eram seguidos pelo mercado real. Relatrio do Banco Mundial, o Bird, apontara, em 30 de julho de 1977, manipulao na taxa de inflao de 1973. Mais tarde, em 11 de novembro de 2001, O GLOBO publicou a reportagem Delfim diz que manipulou inflao em 1973, sobre o recm-lanado livro Mario, de depoimentos de colegas e amigos de Simonsen. Na obra,Delfim Nettoafirma que conseguia conter os ndices aumentando a oferta de alimentos no Rio, que era a nica cidade onde a Fundao Getlio Vargas (FGV) apurava os preos no varejo. Com o aumento na oferta, os preos caam.

O fim do milagre parecia ser a despedida do poder deDelfim Netto, especialmente quando o presidente Geisel o nomeou embaixador do Brasil na Frana, um quase exlio, at porque ele no tinha perfil para o cargo, segundo alguns crticos. Como afirmou o jornal francs Le Monde, em anlise do novo ocupante da embaixada brasileira, publicada em outubro de 1974: um Embaixador pouco comum o que o Governo brasileiro acaba de nomear para Paris. Nem diplomata, nem militar, nem sequer homem de Partido,Delfim Netto sobretudo citado nestes ltimos anos nos crculos do show business internacional. O jornal afirmou ainda que, se j no encarna como antes a filosofia do regime militar brasileiro, Delfim Neto pode prestar ainda preciosos servios.

Depois do perodo como embaixador, ele voltou ao Brasil em 1978 e tentou, sem sucesso, se lanar como candidato do PDS ao governo de So Paulo (quem levou a nomeao foi Paulo Maluf). Em 1979, porm, j sob o governo do general Joo Baptista Figueiredo, ele voltou ao centro do poder. Aps exatamente cinco meses no Ministrio da Aricultura, Delfim substituiu Mario Henrique Simonsen no Ministrio do Planejamento, em 15 de agosto, sob promessa de uma poltica desenvolvimentista, o contrrio das propostas de recesso do seu antecessor. Uma manchete do GLOBO de 25 de outubro de 1979 mostrava a sua influncia: Delfim, ministro de fato da Economia, quem decide.

A economia, novamente sob sua batuta, desaqueceu, os juros aumentaram e a dvida externa tambm. Em 1982, o Brasil recorreu ao Fundo Monetrio Internacional (FMI). O GLOBO conseguiu, por meio da Lei de Acesso Informao, documentos que mostram que o governo esperou at dezembro para ir ao Fundo, para que isso no o prejudicasse nas eleies para governadores, em novembro daquele ano. A reportagem foi publicada no dia 2 de setembro de 2012. O ento presidente do Banco Central, Carlos Langoni, confirmou a histria em declarao ao GLOBO:

Sem dvida, houve deciso de segurar o acordo com o FMI, que era inevitvel afirmou Langoni.

O aumento insustentvel da dvida externa foi o que marcou a passagem de Delfim pelo Ministrio do Planejamento no fim da ditadura militar. Em 1983, ele chegou a ser convocado pelo seu prprio partido, o PDS, para explicar o tamanho da dvida ao Congresso. A situao da economia fez com que Delfim deixasse o ministrio com baixa aprovao, ainda que fosse quase unanimemente considerado um dos economistas mais brilhantes do Brasil. O motivo pode ter sido resumido pelo ex-ministro da Fazenda Octvio Gouva de Bulhes, em declarao reproduzida pelo GLOBO em 23 de julho de 1982: Delfim competente, mas sua poltica est errada.. Aps sair do cargo, em 1985, ele foi o coordenador da campanha vencedora de Jnio Quadros Prefeitura de So Paulo, e, no ano seguinte, elegeu-se deputado federal pelo mesmo PDS, antiga Arena, partido do governo militar. Ficou na Cmara por cinco mandatos.

Em seguida, Delfim surpreendeu mais uma vez: tornou-se conselheiro do ento candidado a presidente Luiz Incio Lula da Silva. Ainda durante a campanha de 2002, Delfim foi interlocutor frequente do futuro ministro da Fazenda Antnio Palocci. A relao entre Delfim e o PT foi tamanha que, em 13 de outubro de 2002, duas semanas antes do segundo turno da eleio que levou Lula ao poder, a coluna de Elio Gaspari no GLOBO comeou assim: Se Lula vencer a eleio, seu governo ter comeado na tarde de tera-feira, numa sala do Hotel Sofitel, em So Paulo, quando ele sentou-se com o deputadoDelfim Netto. Gaspari afirmou que eles combinaram que, se eleito, Lula faria uma presidncia mais moderada, de respeito aos contratos e propriedade, reforma tributria e cedendo independncia ao Banco Central. Gaspari afirmou ainda que Delfim ajudou na elaborao da Carta aos brasileiros, em que Lula prometera no fazer um governo radical.

Apesar de algumas crticas, a surpreendente influncia do antigo czar da economia permaneceu ainda durante o governo petista. Em 26 de janeiro de 2016, uma manchete do GLOBO afirmava: Delfim Nettosugere que Dilma v ao Congresso apresentar projetos. Uma semana depois, nova manchete: Dilma decide ir ao Congresso, onde defender recriao da CPMF. Em 23 de julho de 2017, em pleno domingo, foi a vez de Michel Temer, que assumiu a Presidncia aps o impeachment de Dilma, se reunir com o czar da economia para pedir conselhos.

Em 9 de maro de 2018,Delfim Nettofoi alvo da Operao Lava-Jato, aps delao premiada de Flvio Barra, ex-executivo da Andrade Gutierrez, realizada em abril de 2016. As investigaes apuraram que Delfim teria recebido R$ 15 milhes (de um total de R$ 145 milhes em propinas), para montar o consrcio, formado por pequenas construtoras, que venceu a licitao para construo da Usina de Belo Monte, no Par, uma das maiores do mundo. Na verdade, no teria havido concorrncia, mas um acordo entre as empreiteiras. A defesa do ex-ministro disse que valores recebidos foram de "honorrios por consultoria prestada".

Fonte: oglobo.globo.com (Por Augusto Decker,com edio de Matilde Silveira)
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