Especialistas indicam pontos que podem comprometer eficincia da Rota Biocenica
Com cerca de 65% das obras concluídas, uma das principais estruturas em fase avançada é a ponte que ligará Porto Murtinho (MS) a Carmelo Peralta (Paraguai), financiada pela Itaipu Binacional.
Enquanto avanam as obras da Rota Biocenica o corredor internacional que ligar o Brasil ao Chile, passando por Paraguai e Argentina especialistas e empresrios apontam desafios que precisam ser superados antes da inaugurao das primeiras etapas da rota, prevista para o prximo ano. Entre os principais entraves est a inviabilidade no escoamento da soja pelas Cordilheiras dos Andes, onde a altitude chega at 4.200 metros e no possvel e nem permitido trafegar com veculos longos, como os biarticulados que serpenteiam por estradas brasileiras.
Outros problemas incluem questes burocrticas, alfandegrias e a carncia de mo de obra qualificada para atender s expectativas de crescimento do fluxo logstico, a partir da concluso de algumas obras previstas para 2026. A avaliao do pesquisador Eduardo Lus Casarotto, professor da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) e membro da rede de universidades latino-americana (UniRila), ligada ao projeto da Rota Biocenica.
Com cerca de 65% das obras concludas, uma das principais estruturas em fase avanada a ponte que ligar Porto Murtinho (MS) a Carmelo Peralta (Paraguai), financiada pela Itaipu Binacional. Casarotto frisa que importante para o empreendimento como um todo que os entraves sejam superados antes mesmo da entrega das primeiras etapas do corredor internacional.
Com exceo das pontes e alguma pavimentao, as estradas esto prontas, porque elas j existem. s asfaltar e melhorar as condies.
Dados do Ministrio dos Transportes mostram o andamento dos servios de manuteno e melhoria das rodovias federais BR-267 e BR-060 que faro parte do trajeto da Rota em Mato Grosso do Sul, entre Campo Grande e Porto Murtinho, as quais prometem facilitar o transporte de mercadorias e de pessoas, e promover o desenvolvimento regional, conforme informou o rgo ao Campo Grande News.
Alm de obras para adequao do Porto Murtinho Alto do Caracol e de acesso nova ponte sobre o Rio Paraguai, regies fronteirias, o governo federal atua na contratao de empresa para conservao e recuperao da BR-267, cuja fase est com 8% de execuo.
Transposio na Cordilheira dos Andes
Principal produto de exportao do Brasil, a soja dificilmente poder ser escoada pela Cordilheira dos Andes sem que a engenharia encontre uma alternativa de contornar a montanha de gelo e neve. A travessia inclui altitudes extremas e curvas sinuosas, no trecho entre Salta (Argentina) e os portos de Antofagasta ou Iquique (Chile). Trata-se do trecho mais estratgico e desafiador da Rota Biocenica para o acesso aos mercados asiticos.
Segundo Casarotto, o escoamento da soja, ao menos no curto prazo, invivel devido aos modelos de caminhes atualmente utilizados. O transporte do gro que segue para o exterior majoritariamente pelo Porto de Paranagu (PR) realizado por caminhes adaptados s estradas brasileiras, como rodotrens (nove eixos, at 74 toneladas) e bitrens (sete eixos, at 57 toneladas). Caminhes desse porte enfrentam severas dificuldades para trafegar em regies montanhosas, por serem pesados e exigirem grande fora, o que resulta em perda de potncia dos motores em altitudes elevadas.
Esses caminhes no conseguiriam transpor a barreira fsica das Cordilheiras dos Andes, pois enfrentariam muitos problemas e no so autorizados a rodar nessa regio, destaca o professor.
Dessa forma, produtos como protena animal, suco de laranja e combustveis apresentam maior viabilidade para uso da Rota Biocenica, partindo diretamente de Campo Grande. Esses itens so transportados em carretas convencionais, com capacidade para at 35 toneladas. Por outro lado, com as facilidades logsticas proporcionadas pela Rota, Mato Grosso do Sul tende a se tornar um importante centro de distribuio de mercadorias importadas. Segundo Casarotto, o Brasil tambm deve intensificar a importao do gs argentino por meio do corredor.
Alternativas para o escoamento da soja pela Rota esto sendo analisadas por universidades, empresas e associaes do setor. Uma das possibilidades seria o uso de contineres, mas estudos apontam que, por enquanto, o modelo no oferece vantagens competitivas.
O custo-benefcio ainda a principal questo. Desde a pandemia, com a escassez global de contineres, os custos aumentaram significativamente, analisa Casarotto. Outro obstculo a falta de infraestrutura adequada, como terminais de armazenamento de gros nos portos chilenos. Todos ns estamos estudando essas questes, que vo alm da condio fsica da rota, afirma.
Mesmo como os desafios, o presidente da Associao dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso do Sul (Aprosoja-MS), Jorge Michelc, demonstra otimismo. Para ele, a Rota Biocenica ser uma alternativa competitiva de escoamento nos prximos anos, reduzindo custos logsticos, ampliando o acesso aos mercados asiticos e promovendo a integrao com o seto produtivo.
Entendemos que a Rota Biocenica representa uma janela de oportunidades para o agro de Mato Grosso do Sul, afirma. Michelc acredita que, com o tempo, os gargalos logsticos sero superados. Com a Rota Biocenica, Mato Grosso do Sul se tornar um corredor natural de exportao para a sia, avalia.
Com extenso de 2.396 quilmetros, a Rota ligar os oceanos Atlntico e Pacfico por meio dos portos de Antofagasta e Iquique, no Chile, ampliando a conexo com os mercados asiticos especialmente a China, maior parceira comercial do Brasil e de Mato Grosso do Sul.
Deficit de caminhoneiros
Outro gargalo o deficit de motoristas qualificados para atuar em rotas internacionais. O presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Carga e Logstica de Mato Grosso do Sul (SetLog-MS), Claudio Cavol, aponta que a escassez de profissionais preocupante.
Segundo ele, o deficit no estado ultrapassa 15 mil motoristas. Hoje, se tivssemos 10 mil motoristas prontos, todos estariam empregados no mercado de trabalho em Mato Grosso do Sul, afirma.
A tendncia de que a situao se agrave com o incio das operaes da Rota Biocenica dada a expectativa de aumento do fluxo logstico. Cavol ressalta a necessidade de preparar tambm a frota internacional.
Entre os fatores que desestimulam novos profissionais esto a falta de segurana nas estradas e a ausncia de infraestrutura adequada.
Para enfrentar o problema, Cavol defende que o Brasil, incluindo o Sistema S, invista em treinamento e qualificao de motoristas para operar veculos pesados. Ele aponta que o domnio do espanhol ser um diferencial.
A barreira lingustica aumentar os custos operacionais. O motorista vai exigir mais para realizar transporte internacional, pois precisar conhecer uma legislao mais rigorosa, superar a barreira do idioma e saber se comunicar minimamente em espanhol nos postos fiscais, exemplifica.
Ocorre que o Governo de Mato Grosso do Sul desenvolve desde 2023 programa Voucher Transportador, que em 2025 passou a oferecer 3 mil vagas para formao gratuita de motoristas de carga e nibus, justamente, para preparar profissionais para atender crescente demanda do setor de transporte no Estado.
Sem custos, os motoristas podem acrescentar as categorias D e E s suas carteiras de habilitao. A formao realizada em parceria com o Sest/Senat e inclui capacitao terica e prtica, o que significa investimento de cerca de R$ 3,5 mil por motorista beneficiado..
Alm de promover empregabilidade, o Voucher Transportador atende s necessidades de grandes empresas instaladas em Mato Grosso do Sul
Desafios alfandegrios e legais.
A integrao alfandegria entre Brasil, Paraguai, Argentina e Chile outro ponto sensvel. A estimativa de que essa integrao otimize o fluxo e reduza os custos operacionais. No entanto, segundo Cavol, ainda h lentido na implementao de estruturas alfandegrias, como na rota que liga Porto Murtinho a Carmelo Peralta.
Outro entrave citado por ele a necessidade de adaptao legislao de transporte internacional. Para operar legalmente, empresas precisam atender s exigncias da Agncia Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e s legislaes dos demais pases envolvidos.
Alm da burocracia do Brasil, que j extremamente complexa, ainda precisamos nos adaptar s regras do Paraguai, da Argentina e do Chile. um imbrglio burocrtico que inviabiliza a participao de pequenas e mdias empresas no corredor internacional, afirma.
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