Pedro Juan Caballero - 1 de agosto de 2026
el mundo

O laranjal de Flávio

Publicado el 25/06/2020

As investigaÃ┬ºÃ┬Áes sobre o filho do presidente agravam a crise do governo. Além da associaÃ┬ºúo com milicianos, há a suspeita de peculato, organizaÃ┬ºúo criminosa e improbidade administrativa. Apesar de um habeas corpus ter suspendido tempo-rariamente o processo, os rolos do senador aumentam os riscos


No pedido de priso de Fabrcio Queiroz, o Ministrio Pblico do Rio aponta cinco vezes Flvio Bolsonaro como lder de uma organizao criminosa. uma meno devastadora para Jair Bolsonaro. Nunca a famlia de um presidente da Repblica teve envolvimento com o crime organizado. A priso de Queiroz a ponta do iceberg do maior escndalo que envolve o presidente desde que tomou posse. J o filho 01 um problema desde a campanha eleitoral do pai, quando era investigado por um suposto esquema de rachadinhas na Assemblia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). O envolvimento com milcias cariocas, que veio tona, so o dado mais explosivo.

DINHEIRO VIVOCircuito interno da agncia bancria na Alerj mostra Queiroz pagando boletos escolares das filhas de Flvio em dinheiro (Crdito:Divulgao)

UNIDOSFabrcio Queiroz e Flvio Bolsonaro na loja de chocolates do senador em um shopping do Rio (Crdito:Divulgao)

As revelaes surgiram com a Operao Furna da Ona, um desdobramento da Lava Jato, que apurava as movimentaes suspeitas superiores a R$ 1,2 milho de Queiroz, detectadas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Como era assessor parlamentar de Flvio na Alerj, alm de amigo de 40 anos de Jair Bolsonaro, Queiroz virou um problema e foi demitido no final de 2018 pelo primognito do presidente, no mesmo dia em que o pai, ento deputado federal, desligou a filha de Queiroz, Nathalia, que estava lotada no seu prprio gabinete na Cmara. Queiroz apontado pelo MP como o operador financeiro do esquema das rachadinhas (desvio de parte do salrio dos servidores), quando Flvio era deputado estadual,. suspeito dos crimes de peculato, lavagem de dinheiro e organizao criminosa entre 2007 e 2018. Ao autorizar a sua priso, o juiz Flvio Itabaiana, da 27 Vara Criminal, apontou repasses de ex-assessores que superam R$ 2 milhes. Os saques totalizam quase R$ 3 milhes. As investigaes que levaram sua captura envolveram a quebra de sigilo de 103 pessoas e o compartilhamento de provas com a Operao Intocveis, que mirava o miliciano Adriano da Nbrega. A primeira ofensiva do MP cumpriu 24 mandados de buscas em dezembro de 2019. Foi a partir dessas buscas que se chegou ao esconderijo de Queiroz. A investigao sobre Flvio deve embasar as primeiras denncias a serem apresentadas Justia, o que deve ocorrer nos prximos dias, envolvendo ainda outro deputado.

Financiamento da milcia

Para o MP, o esquema da rachadinha no visou apenas o benefcio pessoal de Flvio. Serviu para financiar a milcia por meio de Queiroz e do ex-policial Adriano da Nbrega, apontado como integrante do ncleo executivo da organizao criminosa. Este outro personagem que assombra Flvio. Ex-capito do Bope, Adriano era o lder do grupo de milicianos e assassinos de aluguel Escritrio do Crime, investigado pela participao na morte da vereadora Marielle Franco. Adriano e Queiroz se conheceram quando serviram juntos no 18 Batalho da PM. Na poca, Flvio homenageou Adriano com uma comenda da Alerj, quando este estava preso, acusado de homicdio. Seu papel no esquema de rachadinhas grande. O MP estima que ele depositou R$ 400 mil para Queiroz. Sua me foi lotada no gabinete de Flvio, assim como a ex-mulher, Danielle Mendona da Costa. As investigaes apontam que eram funcionrias fantasmas. Adriano foi expulso da corporao em 2014. Foragido, foi morto em fevereiro, ao resistir priso na Bahia, num episdio nebuloso.

A ligao do gabinete de Flvio com milicianos no se resume a Adriano da Nbrega. O MP afirma que Queiroz mantm influncia sobre a milcia de Rio das Pedras, onde atuava Nbrega. Alm disso, a ISTO revelou em fevereiro de 2019 que a ex-assessora de seu gabinete na Alerj Valdenice de Oliveira Meliga, a Val, era irm dos milicianos Alan e Alex Rodrigues Oliveira. Ela era uma funcionria de confiana de Flvio, que delegou a ela a responsabilidade pelas contas de sua campanha para o Senado. A ISTO obteve pelo menos dois cheques de Flvio assinados por ela na campanha. Alm do envolvimento com milcias, Val revelou pistas sobre o uso de laranjas e expedientes na campanha de 2018 para fazer retornar ao PSL o dinheiro do fundo partidrio. A legenda, na poca, era comandada por Flvio Bolsonaro no Rio. A conexo com milicianos vista como o fundo do poo por diretores da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que passou a enxergar fatos concretos para embasar um pedido de afastamento do presidente.

Outro personagem na mira do MP o advogado Luis Gustavo Botto Maia, responsvel pelas contas eleitorais da campanha de Flvio ao Senado. Ele teria participado do planejamento e fuga de Queiroz e passou a atuar de forma criminosa no esquema. De acordo com as investigaes, Botto Maia e Queiroz atuaram para atrapalhar as investigaes sobre folhas de ponto de funcionrios da Alerj. Tambm teria participado de um plano de fuga de Queiroz e de sua mulher Mrcia Oliveira de Aguiar, com a ajuda de Raimunda Veras Magalhes, me de Adriano, antes de sua morte. O advogado ainda teria se reunido em dezembro com o Anjo (codinome de Frederik Wassef, ex-defensor de Flvio e do pai) e com Queiroz, em Atibaia. Foragida, Mrcia frequentou a casa de Atibaia, conforme confirmou a advogada Ana Flvia Rigamonti, que trabalhou com Wassef.

Para o MP, as atividades bancrias de Queiroz comprovam que transferia parte dos recursos ilcitos desviados da Alerj diretamente ao patrimnio familiar de Flvio, mediante depsitos e pagamentos de despesas pessoais. Os investigadores detectaram pelo menos 116 boletos bancrios referentes ao custeio do plano de sade e das mensalidades escolares das filhas dele e da sua esposa, Fernanda Bolsonaro, com dinheiro em espcie. A suspeita dos promotores que despesas no valor total de R$162 mil podem ter sido quitadas por Queiroz. O MP conseguiu imagens do circuito interno de uma agncia bancria dentro da Alerj que mostram o momento em que Queiroz pagou dois boletos escolares das filhas de Flvio em dinheiro vivo, em 2018. No o nico caso em que h operaes suspeitas feitas com dinheiro vivo. O Coaf identificou 48 depsitos de R$ 2 mil cada, num total de R$ 96 mil, nas contas de Flvio. As investigaes concluram ainda que houve indcios de lavagem de dinheiro em outros bens adquiridos pelo senador. o caso do pagamento de R$ 31 mil, em espcie, a uma corretora de valores, feito para cobrir prejuzos financeiros referentes a investimentos que Flvio e Carlos Bolsonaro fizeram na Bolsa de Valores.
Tambm h outros indcios. O dinheiro supostamente tambm era lavado por meio de uma loja de chocolates num shopping do Rio que recebia aportes maiores do que o faturamento e aplicado em imveis. Entre 2010 e 2017, o senador comprou 19 imveis por R$ 9 milhes. Segundo os promotores, lucrou R$ 3 milhes em transaes imobilirias com suspeitas de subfaturamento nas compras e superfaturamento nas vendas. O MP analisou 37 transaes imobilirias do senador entre 2005 e 2018. As suspeitas sobre essas transaes vo ser aprofundadas nas prximas etapas da investigao.

Flvio at agora conseguiu se livrar do nico inqurito conduzido pela Polcia Federal no Rio de Janeiro, a apurao de falsidade ideolgica para fins eleitorais, que se refere ao financiamento para a aquisio de um imvel. O senador atribuiu valores distintos a um mesmo imvel nas declaraes de bens entregues Justia Eleitoral nas eleies de 2014 e 2016. A PF j pediuo seu arquivamento. O promotor eleitoral do caso avalizou o arquivamento. O juiz Itabaiana, que tambm conduz a apurao da rachadinha na 27 Vara Criminal, submeteu o arquivamento Cmara do MPF.

Divulgao

O filho 01 do presidente tenta se desvencilhar da imagem de Queiroz, sem sucesso. Aps a revelao de um udio em que Queiroz d orientaes sobre como conseguir nomeaes em gabinetes no Congresso, em outubro de 2019, o senador afirmou que no tinha mais nenhum tipo de contato com o ex-assessor. Em maio, defendeu Queiroz e o chamou de um cara correto e trabalhador. Tentou bloquear as investigaes do MP vrias vezes. Em julho de 2018, conseguiu que o ministro Dias Toffoli, do STF, suspendesse todas as investigaes no Pas que tinham como base dados compartilhados pelo Coaf sem autorizao prvia da Justia. A medida s foi revertida pelo plenrio da corte em novembro, quando as investigaes puderam ser retomadas. Em dezembro, o cerco comeou a se fechar. O filho do presidente ainda aposta que o MP no vai conseguir apresentar sua denncia. Conseguiu na quinta-feira, 25, um habeas corpus no Tribunal de Justia do Rio que trava o processo, ainda que as provas tenham sido preservadas. Alegou ter direito ao foro privilegiado, pois os fatos investigados ocorreram quando era deputado estadual. um alvio provisrio. Ao mesmo tempo, mudou de ttica. Depois da priso de Queiroz e do afastamento do advogado Frederik Wassef, pediu para ser ouvido no inqurito.

REDEFlvio e o pai (no alto) e Gustavo Botto Maia, Raimunda Veras Magalhes (me de Adriano da Nbrega) e Mrcia de Aguiar (mulher de Queiroz) (Crdito:Divulgao)

Bolsonaro acuado

Jair Bolsonaro sustenta que no tem ligao com o escndalo do filho. Mas suas digitais esto por toda parte. Pouco antes de assumir, tentou explicar o repasse de R$ 24 mil de Queiroz para a conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro. Disse que o valor se referia ao pagamento de emprstimo no declarado de R$ 40 mil. Entre os supostos funcionrios fantasma do gabinete do filho, dez eram da famlia Siqueira, de Resende, no Rio. Todos so parentes de Ana Cristina Siqueira Valle, ex-mulher do presidente. A ligao com Queiroz notria. O mandatrio j admitiu que a condecorao a Adriano da Nbrega na Alerj ocorreu a seu pedido. Naquela poca Adriano era um heri, disse. Mas o presidente nega ter ligao com milicianos.

O presidente, seus familiares e apoiadores esto cada vez mais acuados pelas vrias investigaes no STF: de interferncia na PF, o inqurito das Fake News e o inqurito sobre atos antidemocrticos. Com o avano das investigaes sobre Flvio, Bolsonaro moderou os ataques ao STF e tem evitado aparies pblicas. Sentindo o risco para o seu mandato, tem procurado reforar a aproximao com o Centro. As investigaes contra o filho tambm abalaram a confiana dos militares. Diante do que j se sabe e do que est por vir, sua situao se deteriora. Um dos ltimos pilares para o seu apoio era o combate corrupo, imagem que conseguiu sustentar enquanto Sergio Moro era ministro. No mais. As suspeitas s aumentaram desde a descoberta do esquema de laranjas, ainda durante a campanha eleitoral. Os rolos de Flvio esto colocando prova sua autoconfiana caudilhesca, amparada na famlia e nos amigos.

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