Terra está perto de atingir 5 pontos de não retorno; veja quais são e entenda a crise em gráficos
Constatação é de um estudo de pesquisadores da Universidade de Exeter, no Reino Unido. "Pontos de inflexão representam uma 'ameaça para a humanidade de uma magnitude sem precedentes", alerta líder de estudo sobre o tema.
Coral embranquecido visto no local onde redes de pesca abandonadas o cobriram em um recife na rea protegida de Ko Losin, na Tailndia, depois que um grupo de mergulhadores voluntrios e o Centro de Pesquisa de Recursos Costeiros, auxiliado pela Marinha Real da Tailndia, removeram 2.750 m de rede, no dia 20 de junho de 2021. Foto: Jorge Silva/Reuters
O mundo est perto de atingir5 pontos de no retornoque podem desencadear catstrofes ambientais irreversveis. E o aquecimento global tem culpa nisso, alertaram cientistas nesta semana.
Ou seja, se no controlarmos o aumento global da temperatura, eventos como ocolapso de corais de guas quentes, odegelo do permafroste oderretimento de grandes pores de gelo no rticoe na Antrtidase tornariam cada vez mais provveis(entenda mais abaixo).
A constatao de um estudo de pesquisadores da Universidade de Exeter, no Reino Unido, e financiado pelo Fundo Bezos Earth, do empresrio norte-americano Jeff Bezos.
"Esses pontos de inflexo [como tambm so chamados] representam uma 'ameaa para a humanidade de uma magnitude sem precedentes", alertou AFP o chefe do relatrio, Tim Lenton, especialista em sistemas terrestres da Universidade de Exeter.
Abaixo, entenda por que a preocupao com os 5 sistemas abaixo:
- Corais de guas quentes
- Manto de gelo da Groelndia
- Manto de gelo da Antrtida Ocidental
- Permafrost - solo congelado do rtico
- Circulao do Atlntico Norte
1. Corais de guas quentes
Ao todo, o relatrio descreve 26 pontos de inflexo, porm os mais dramticos so os 5 que vamos explicar aqui. Segundo os cientistas,esses processos parecem j estar atingindo seu limite.
No caso dos corais de guas quentes no difcil entender o motivo.
Francyne Elias-Piera, PhD em Cincia e Tecnologia Ambiental pela Universitat Autnoma de Barcelona, explica que os recifes de corais de guas quentes so ecossistemasaltamente sensveis s mudanas climticas,sendo particularmente vulnerveis ao aumento da temperatura da gua e acidificao dos oceanos.
Eles esto localizados em reas ao redor do equador onde a gua mais quente e, como mostram dados globais(veja o grfico abaixo),eventos moderados e severos de branqueamento esto acontecendo cada vez mais nos ltimos anos.
Isso porque devido ao aumento da temperatura da gua, desencadeado pelo aquecimento global, os corais expulsem as algas simbiticas que vivem em seus tecidos, resultando na perda da colorao que ameaa a sade dos recifes.
Um estudo de 2020 inclusive, publicado pela Rede Global de Monitoramento de Recifes de Coral (GCRMN), revelou que o mundo perdeu cerca de 14% de seus recifes de coral desde 2009. Este relatrio, pioneiro em sua categoria, baseou-se em dados coletados em mais de 12.000 locais de coleta em 73 pases ao longo de um perodo de mais de 40 anos (1978-2019).
Por isso, Francyne sugere algumas aes prticas que no futuro podem salvar os corais, como por exemplo:
- Monitoramento eficaz:o uso de tecnologias como drones e satlites para observar de perto a temperatura da gua e a sade dos corais.
- Cooperao entre cientistas e comunidade:compartilhamento de informaes sobre prticas sustentveis de pesca, evitando poluio e prticas prejudiciais ao ambiente marinho.
- Apoio a iniciativas existentes:suporte a projetos que j trabalham no plantio de corais e na recuperao de recifes danificados.
- Estabelecer reas protegidas:a criao de zonas onde a pesca controlada, permitindo a recuperao dos ecossistemas.
"A comunidade cientfica necessita estar unida com a comunidade local, para que passe as informaes dos estudos cientficos para a populao e para que a populao local tambm passe informaes do que est acontecendo no ecossistema", diz.
2. Circulao do Atlntico Norte
Adriana Lippi, mestranda em cincia e tecnologia do mar na Unifesp, explica que temos no nosso planeta um grande distribuidor de calor, a chamada circulao termohalina, que movida principalmente pelas diferenas de temperatura e salinidades entre regies equatoriais e polares.
"Com o aquecimento global, todo o oceano tem se aquecimento [veja grfico abaixo] e as regies mais frias esto cada vez mais aquecidas e isso desacelera a circulao termohalina", diz.
Como cerca de 90% do calor global est armazenado nos oceanos, as mudanas nessas correntes influenciam o clima em diversas regies do globo.
E alguns estudos indicam que j estamos tendo umadesacelerao de 15%no sistema de correntes atlnticas desde meados do sculo 20, especialmente na corrente do Giro Subpolar do Atlntico Norte, localizada perto das costas da Groelndia e Labrador.
Segundo o IPCC, tanto nesse Giro Subpolar, no Mar do Labrador e nos Mares Nrdicos, foram observadas grandes mudanas na salinidade que foram associadas a alteraes nas entradas de gua doce (derretimento do gelo, circulao ocenica e escoamento fluvial).
Por isso, de acordo com os cientistas, a nica maneira de impedir a paralisao desse sistema reduzir as emisses de gases do efeito estufa e o consequente aquecimento do planeta.
3. Manto de gelo da Groelndia
O planeta est esquentando, e isso j sabido h algum tempo. Desde a Revoluo Industrial, a temperatura mdia subiu em torno de 1,1C a 1,2C. Contudo, os impactos no se limitam nossa atmosfera; eles alcanam os oceanos, gerando transformaes significativas.
Francyne explica que correntes atmosfricas e marinhas agora esto mais quentes. Por isso, quando atingem reas como a Groenlndia, causam o derretimento do manto de gelo. E esse processo uma pea-chave no aumento do nvel do mar, podendo atingir propores alarmantes.
"Nesses locais, as montanhas e as rochas so de uma cor escura, e sem o gelo, ficam expostas. As rochas escuras absorvem o calor do sol, esquentando ainda mais o local", diz a pesquisadora.
No relatrio, os pesquisadores citam ainda um ponto crtico a considerar nessa questo. Se o manto de gelo da Groenlndia se desintegrar, isso pode levar a uma mudana abrupta naCirculao Meridional Atlntica, uma corrente crucial que fornece a maior parte do calor Corrente do Golfo. Esse evento, por sua vez, pode intensificar o fenmenoEl Nio, um dos padres climticos mais poderosos do planeta, que j est trazendo diversas transformaes ao nosso clima nos ltimos meses.
E em 2023, a Groenlndia perdeu gelo pelo 27 ano consecutivo. O derretimento foi alto em julho, com chuvas e neve acima do normal na primavera e incio do vero no Hemisfrio Norte(veja grfico abaixo).
Por isso os cientistas alertam que a possibilidade de chegarmos a um ponto de no retorno na Groelndia no est to longe, onde o desaparecimento do manto de gelo se torna irreversvel. um cenrio desafiador que exige ateno imediata, considerando as implicaes no apenas para o nvel do mar, mas tambm para padres climticos globais.
4. Manto de gelo da Antrtida Ocidental
Na Antrtida a situao bem parecida, como evidenciado pelo recorde de menor extenso do gelo marinho em julho de 2023, desde que os regisros por satlite contnuos comearam em 1978(veja grfco abaixo).
E isso tambm resultado do aquecimento global, que est fazendo a gua do oceano aquecer e o gelo derreter.
E h algum tempo os cientistas alertam em especfico sobre o derretimento acelerado da camada de gelo na Antrtida Ocidental, impulsionado pelo aquecimento do Oceano Austral, especialmente na regio do Mar de Amundsen.
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Icebergs no Mar de Amundsen, na costa oeste da Antrtida, em foto de outubro de 2015. Foto: ESA/
5. Permafrost - solo congelado do rtico
O permafrost um tipo de solo congelado que geralmente encontrado em regies muito frias, como o rtico, incluindo lugares como a Groenlndia, o estado norte-americano do Alasca, Rssia, China e a Europa Oriental.
O descongelamento desse solo, que cobre cerca de23 milhes de kmno norte do planeta, no facilmente visvel, pois ele fica abaixo da superfcie, mas representa um problemo.
Isso porque, segundo estudos mais recentes, o permafrost como um todo armazena uma enorme quantidade de carbono, aproximadamente1.700 bilhes de toneladas.
"O descongelamento do permafrost pode levar a uma srie de impactos significativos, incluindo a liberao de gases de efeito estufa armazenados, mudanas na hidrologia local e instabilidade do solo", alerta Francyne.
E por causa do aquecimento global, as temperaturas do permafrost esto subindo mais rpido que a temperatura do ar no rtico, aumentando entre 1,5 a 2,5 graus Celsius nos ltimos 30 anos. Isto , as camadas de permafrost j esto derretendo.
E um aumento de 3 graus Celsius nas temperaturas globais pode derreter cerca de 30 a 85% das camadas superiores de permafrost no rtico, causando danos infraestrutura e mudanas irreversveis nas paisagens e ecossistemas nicos do mundo.
"Entre as estratgias preventivas a abordagem mais eficaz a reduo global das emisses de gases de efeito estufa para limitar o aquecimento global e, assim, reduzir o descongelamento do permafrost", acrescenta.
g1.globo.com





